domingo, 12 de julho de 2015

Gravação:Insumos Musicais

"Na Alemanha de 1920-30 a diversão da classe média alta era lançar foguetes tipo daqueles da Barreira do Inferno – Rio Grande do Norte. Menores mas muito parecidos. Vejam bem!A classe média alemã e não sofisticados cientistas ou empresas governamentais. A disputa era trivial. Qual foguete iria mais alto e reto. Era tudo desenvolvido nas suas garagens. Como norte americanos faziam/exerciam sua criatividade nos celeiros/garagem com peças mais simples, do dia-a-dia, como uma cadeira ou roda d’água. No pós guerra a Alemanha perdeu esse acesso fácil aos insumos estratégicos e baratos, mas nos EUA eles copiaram e já sabemos o resultado. Pranchas de surf, skate, windsurfe, só para ficar na área esportista. Os insumos na Alemanha (máquinas de solda, gases para soldar, combustível químico, cilindros metais especiais, etc.) eram acessíveis e os custos do hobby suportáveis para a classe média."
https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/60/Onalaska-Practice6.jpgTrazendo isso para realidade musical brasileira é o seguinte: nos últimos 10 anos o que se viu foi um crescente aumento da música independente justamente porque as tecnologias de gravação caseira ficaram acessíveis aos músicos. Então de uma para outra era possível gravar em casa ou abrir um pequeno estúdio fazendo gravações de qualidade. Nos anos 80 e 90 era muito comum a única maneira de gravar suas composições era no toca fitas! Claro que havia equipamentos bons para gravar, mas estes ficavam nas grandes gravadoras.
Algumas gravações que me mandaram e analisei (hoje em dia não faço mais por falta de tempo) eu considerei isso. O fato era que não dava para você comparar uma gravação feita com um Notebook (onde tudo é praticamente onboard) com um computador Desktop com todos os requisitos necessários a uma DAW pois a qualidade de som gerada é completamente diferente, isso sem contar o ambiente, equipamentos e o empenho dos músicos.


Então eu analisava mais pelo o que pessoa fez e nunca recebi uma gravação "ruim". Podia estar baixa, podia estar faltando um pouco mais de empenho do músico, podia estar faltando efeito, mas nenhuma havia conflito de mascaramento acústico ou frequências. Claro que as gravadas em equipamentos melhores sempre soavam muito boas.
Minha primeira experiência de gravação real (antes passei por um período de aprendizagem) foi uma banda que eu tinha chamada "Quimíca Natural" em 2000, ou seja há 15 anos atrás. Cada um usava o equipamento que tinha, tudo ligado na mesa de som, separado canal por canal, num computador K6 2 (famoso pelo seu problema de sobreaquecimento) numa DAW Cakewalk 6. O resultado você pode ouvir na música abaixo.


 A questão que aqui era outros tempos. Primeiro era mais fácil conseguir bons equipamentos/instrumentos, pois o preço do dolár era praticamente 1/1. Por exemplo eu tinha um cubo Laney VC50 e tinha pagado usado mais ou menos R$ 1.200, hoje esse mesmo cubo usado está em torno de R$ 4000. Porém se por um lado era fácil conseguir bons equipamentos pelo outro gravar em casa ainda era um parto! Os equipamentos eram caros e só tinha conhecimento quem fosse para São Paulo fazer um curso de gravação então nós iamos mais pela intuição e pela inocência de achar que o computador fazia tudo. Para você ter um exemplo naquela época as placas de som não trabalhavam em "half duplex" (tocar uma pista e gravar a outra ao mesmo tempo) e a gente só conseguiu gravar porque eu tinha uma Sound Blaster AWE64 que gravava numa DAW até 4 canais ao mesmo tempo, tocando 2. E apesar da gravação do CD (com apenas 6 músicas) ficar "mais ou menos" para os padrões de hoje em dia, conseguimos vender numa boa o mesmo.
http://medias.audiofanzine.com/images/normal/laney-vc50-329373.jpgHoje em dia nos temos uma inversão: não é caro comprar um computador, uma placa de som, um par de caixas boas para retorno mas o acesso aos instrumentos e equipamentos "top" (ou pelo menos de 2º linha) está tão difícil quanto os anos 80! E ainda havia na época havia uma lei de "proteção ao mercado", hoje em dia se deve ao fato por dólar novamente estar tão alto estamos ganhando pouco. Claro que há linhas de crédito porém o investimento de R$2000 vira R$5000!
Por isso achei muito interessante um comentário de uma pessoa no Poder Aéreo  site sobre isso:
"Não adianta ser criativo se você não consegue comprar as coisas boas para construir. Hoje um garoto da periferia consegue bolar ótimos programas, jogos, APPs, para celulares. Não o faz devido ao enorme custo do computador de alta performance; pode até fazer no computador usual, mas já sai em desvantagens no seu potencial total. Os robozinhos, coqueluche atual nos cursos de mecatrônica, as peças são caríssimas e só são feitos nas boas universidades… fazer na garagens da casas? Nunca! com tantos impostos e regras (proibições) à criatividade."
http://1.bp.blogspot.com/-GFyFeDTmZQg/UYLtGjrK-KI/AAAAAAAAAKs/6LXJWVXTMOM/s1600/guitarra+baiana.jpgE isso não é de hoje. Os governos brasileiros (não importa quem for) tem essa mentalidade de "barrar" a criatividade (veja quantos gênios em diversas áreas o país já perdeu para outras nações). Em 1940 quando "Dodo e Osmar" os inventores do trio elétrico, inventaram o "pau elétrico" (a guitarra baiana) que não é diferente das guitarras de hoje em dia, a ideia demorou para "decolar" justamente porque as peças que eles precisavam para o invento não estavam a disposição e foi graças a genialidade  de Dodo (que era técnico em eletrônica)o instrumento ganhou vida e também o trio elétrico.
Além do mais de tanta burocracia (que só aumentou de lá para cá) era difícil patentear o invento então deixaram um tempo sem patentear e ainda há uma história que alguns marinheiros americanos levaram 2 instrumentos para lá. O resultado é que hoje poderíamos ter 4 pais da guitarra, sendo 2 brasileiros!
Até hoje é difícil você conseguir registrar uma música mesmo com tempos de internet. Porque será que tudo em relação a cultura é complicado no Brasil?  Mas é como um comentário no Facebook que li logo após o lançamento do PS4 (que estava custando R$ 4000). Agora as pessoas irão sentir na pele o que os músicos já sentem há anos!

Boas gravações!


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