sábado, 24 de abril de 2010

Masterização: 8 perguntas para Greg Reierson

Como é bom estudar! Isso digo com o maior prazer. Sempre tive minhas dúvidas entre o que gravação (tracking), mixagem (mixer) e masterização (máster). Assim como eu, muito acham que o ”masterizar” e o “mixar” são duas coisas feitas juntas. Mas depois dessa entrevista que traduzi com Greg Reierson (um dos maiores masterizadores americanos) feita por Steve Mueske (e pelo site Recording Song Stuff me clareou muitas coisas. Quem quiser ver o artigo original clique aqui.
NOTA: Quem sabe ler em inglês irá notar que não traduzi ao pé da letra, e sim como se ele estivesse feito a entrevista em português, onde há ( ) são comentários meus para identificar melhor certas “gírias técnicas”. Leia! Vai acrescentar bastante seu conhecimento sobre gravação!

1. Você fez o master de mais de 3500 CD nas últimas duas décadas. Quais os erros mais comuns que os clientes lhe entregam uma gravação para fazer uma masterização?

Muitos artistas agora gravam sua própria música e isso trás muitos problemas em comum a todos na hora de fazer uma mixagem. Muitas vezes suas mixagens estão muito brilhantes (agudas) ou muito abafadas (obscuras/sem força) e isso dificulta muito na hora da masterização pois ao arrumar esses problemas podem tender a piorar. Pego mixagens que estão com tantos processos que não há mais vida nelas. Eu pego gravações com o campo estéreo tão grande o som fica encoberto, em outras que o som está totalmente mono. Eu pego gravações com o vocal tão abafado que fica difícil de ouvir. Eu pego “hum” , Buzz, vocal com muitas sílabas e “tics e “click” e todos os outros tipos de barulho, e por isso os comentários que mais ouço no meu estúdio: Nunca tinha ouvido isso antes....

2. Você diz menciona que não é fã da mania atual de “deixar o som o mais alto possível” e isso é uma coisa que apareceu nos últimos 10 anos basta ver as gravações anteriores (dos anos 70, 80 e 90). O que você acha dos muitos engenheiros (de som) estão fazendo isso e porque é tão prejudicial?Você tende a incorporar essas tendências ao seu estilo ou ir contra as mesmas?

Bem, não vamos colocar lenha na fogueira! Fazer uma gravação soar alto não é tão novo quanto se pensa. Nos anos 60 todos os engenheiros tentavam fazer uma gravação soar alto com os recursos que tinham (mais havia muito barulho não haiva filtros) pois era uma forma de fazer a gravação soar melhor nas rádios (este é o maior argumento de fazer um som soar alto). Atualmente há “barulhos digitais” (digital noise) e “pesados processamento de sinais” (broadcast processing) que torna os barulhos mais estáveis pois hoje temos limitadores digitais (limiters) e “clippers” e isso permitiu aumentar consideravelmente o volume num CD! Pois uma das coisas é que os engenheiros podem abusar a mais com as ferramentas de áudio. Porém agora temos uma situação que chamo de “morte tripla” FFF (fear, fad and fashion ou medo da moda passageira). Artistas, produtores, engenheiros estão mais preocupados em fazer uma música soar alto pois acham que assim vão dizer que ela é mais profissional. Mas em algum lugar no meio do caminho eles esquecem de escutar o que acontece com a música pois todo engenheiro com quem converso odeia a chamada “guerra dos picos” (ou guerra dos volumes) e isso anda acontecendo na maioria das músicas até em gêneros como Jazz ou Folk, cuja não há sentido ter isso.(Veja o vídeo abaixo)



Os engenheiros tentam facilitar a visão artísticas de seus clientes, muitas vezes falamos isso em uma masterização extremamente alta num CD. Mas se perguntar a eles (sua opinião pessoal) a maioria dos engenheiros irá dizer que não gostam disso pois não há motivos para fazer isso já que o ouvinte pode aumentar o volume no seu aparelho de som. Por isso, há movimentos tentando baixar o volume das gravações de cd. O site tunemeup.org é um desses movimentos. Continuando a responder, há algumas tendências que influenciaram a masterização. Nos anos de 1970 quando a “gravação independente” estava na infância todos os processamentos eram baseados em válvulas. No final de 1970 e começo de 1980, os equipamentos transistorizados se tornaram comum e no meio dos anos 80 (1985, 1986) entrou o processamento digital e muitas masterizações começaram a serem feitas em estações de trabalho ditais. Porém o sons análogos de válvula sempre coincidiram com a gravação digital e alguns argumentam que a gravação digital sempre necessita de algo análogo, o que fez muitos comprarem EQ e Compressores análogos e até gravadores de vinil. Para mim qualquer ferramenta que lhe dê um trabalho melhor é uma boa escolha, por isso muitas vezes faço algo digital e depois volto pro análogo, além da tendência de sonoridade, com a qual temos de tratar, tudo o que melhor serve à música é a tendência que eu gosto de seguir.

3.Há muita desinformação sobre downsampling e dithering paricularmente na internet. Você poder falar resumidamente sobre isso?Varia por estilo? Você prefere um tipo de “dithering ou faz um por cima do outro?
Oversampling e dithering são importantes para corrigir mas ele desempenha um papel menor em grandes gravações. As peças mais importantes do “quebra cabeças” são a performance, o músico, o instrumento, a qualidade da gravação, a mixagem e a masterização nessa ordem. Com o dither coisas como se deve ou não usar dither e que tipo usar tem pouca importância, devemos usar “dither” porém você deve lembrar que não é a coisa mais importante. Quando feito o “dithering” possue 24 bits ou 16 bits (dependendo sua escolha) que irá conservar a maior parte do som se o mesmo se perder num simples erro (trucagem) ou conversão porque ele reduz bastante os erros de quantização (compilação do áudio). Eu uso um dither “flat” (sem alteramento) em 90% das gravações, ele somente trabalha sem introduzir outros problemas. Um pouco do sabor do dither interage nas freqüências mais altas de um modo inesperado. Encontro muitas vezes alguns “dither” exóticos, mais transparentes e próprios para coisas acústicas. Gosto muito do POW-r Dither (http://www.mil-media.com/pow-r.html) como implementação do meu sistema z-Q2 equalizer. Com “Downsampling” a menos que você precise converter um “sample rate” para ficar em comum com um sua Estação Digital (DAW) (ou até mesmo com um arquivo de áudio) deve ser deixado de lado antes de fazer o “dither” final.

Nota KH: Todo CD o dither sempre é 16 bits e sample rate 44 KHz, leia aqui sobre isso.
A simplifcação de Downsampling é refazer o sample rate de sua gravação em alguma conversão. Ex: 24 bits 48Khz para 16 bits 44KHz e assim por diante.

4. Masterização é descrita como a “Arte Obscura” (the dark art) muitas vezes eu penso que é por causa que as técnicas usadas são muito diferentes da gravação (tracking) e da mixagem (mixer) e muitas vezes é mal compreendida. Uma das coisas que acho incrível sobre os engenheiros de som que são especializados nisso é fazer todas as canções soarem em conjunto (todas as faixas iguais). Muito disso é baseado na experiência de seu ouvido, mas como fazer as canções soarem iguais?

Isso é uma pergunta fácil. Chamam isso “the dark art” justamente por não ser um processo acessível. Qualquer um gosta de ver o que acontece com os processos de sua gravação e mixagem, mas quando a mixagem é mandada para outra pessoa ouvir acho que funciona melhor. O que essa pessoa fazia? Como ele fazia? Que equipamento ele usou? Por que meu engenheiro de som não pode fazer isso?Para ser curto algumas coisas parecem conspirações como se houvesse um “código de secreto” onde somente que faz masterização tem acesso. Pouca gente consegue decifrar isso e essa é a questão! O próprio processo se modificou, mas quem domina esse conhecimento parte do zero para tentar uma compreensão mais clara. Muitas pessoas dessa última década infelizmente não entendem isso. Claro, há alguns consideram uma coisa meio “vudu”, por isso com os “mastering plugins” (plugins masterização, que poucos engenheiros de som dominam) se você tiver o software correto ele irá te dizer exatamente o que fazer e muito desse mito depende justamente desse processo. Um caminho é que somente alguns que tem os equipamentos certos conseguem, mas (hoje em dia) já não é tão mais escondido. Há muitas pessoas fazendo isso e nem sabemos seus nomes e muitos deles são tão bons quanto os “masterizadores” mais conhecidos e usados pelos produtores. Continuando a responder eu penso também que muita coisa tem haver como você houve seu trabalho, pois pegando uma idéia pra onde ele vai para onde ele está indo (você colocar ele nos trilhos ou pode tira-lo) pois um “masterizador profissional” sempre trabalha com a consistência. Nós pegamos mixagem feito em locais que a gravação por dia custam muito dinheiro e em muitos casos os artistas querem que sua música soe bem justamente quando muita coisa é deixado de lado pois a arte da masterização é usar todo tempo para notar pequenos detalhes. O que sobressai? O que está faltando ou está incompreensível? Por que esta canção soa vazia, ou cheia? Por que não consigo ouvir o baixo nesta canção? Por que é esta canção em mono? Que barulho é esse? Por que esta canção está diferente da outra? Uma vez que você identificou as diferenças você pode começar a reduzir gradualmente neles o que está fora (dB, freqüências, barulhos) para concluir o trabalho. Não é algo consciente, é como “um jogo de carro” que você deve “tunar” a medida que a corrida prossegue e isso não é técnica, é fazer algo acontecer, pois é preciso olhar as coisas de fora. Quem está dentro não ouve isso (escutando o trabalho repetidamente) acho que é mais fácil alguém de fora escutar.

5. A antes dos anos 80 para ser engenheiros de som muitas vezes tinha que ser empregado como aprendiz de engenheiros de som experientes, porém agora há escolas sobre isso. Há algo similar para os profissionais de masterização? Você acha melhor trabalhar com alguém que já sabe isso enquanto aprende o ofício?

Acho que não há escola sobre isso pois não há muito mercado para isso. Por exemplo, na minha cidade tem há algo em torno de 200 estúdios grandes e pequenos e somente dois que se dedicam a masterização, pois não é uma coisa que chame a atenção. Eu aprendi com dois engenheiros que já trabalhavam nisso: um da escola clássica de “ouvir e fazer” que me mostrou a importância de conhecer instrumentos reais em ambientes reais. O segundo um experiente engenheiro de som que me mostrou como funciona os equipamentos para fazer sons com transparência e corretamente e assim comecei a masterizar. Nós tentamos preservar a integridade do som enquanto o transferimos para outro processamento. O processamento “pesado” é um fenômeno recente pois agora podemos realçar as gravações e há 20 anos atrás ninguém imaginava isso. Tento devolver em favor dos novos engenheiros de som e acho relativamente fácil ensinar certas coisas que ouvi dos meus mentores, mais tive que aprender muita coisa por conta própria e isso é as vezes é difícil de ensinar! Eu posso ensinar técnicas criativas mas não tenho certeza se posso ensinar coisas que criei. Eu tenho certeza que aprendi muitos truque que estão no mercado, mas como fazer um som soar melhor somente tendo horas de prática.

6.Você é um músico e engenheiro de som. O que ajuda em ser músico ou você trabalha com as dois coisas separadas?

Não é um requerimento e muitos engenheiros não são músicos, mas confesso que assim estou bem sintonizado para música sair do meu jeito.

7.Segundo sua biogrfia você faz parte de organizações profissionais como a AES (Sociedade dos Engenheiros de Áudio) e NARAS (Academia Nacional de Gravações artísticas e ciência) . Isso promove sua carreira? Isso te deixa mais ligado a indústria fonografica?

Eu acho que o melhor caminho para uma carreira é construir uma boa reputação com seu bom trabalho, pertence a uma organização não faz nenhum trabalho aparecer diretamente. Nessas comunidades as pessoas partilham mais suas idéias. Ser um membro AES me colocou em compania de pessoas muito inteligentes e se você começa a se aproveitar disso pode se tornar preguiçoso. Tenho amigos meus que dizem que a “engenheira de som” é a NASA (agência espacial americana) dos anos de 1920 e 1930 por causa que sempre há descobertas sobre o áudio e a maneira de faze-lo ouvindo. Aprendi muito coisas com esse grupo que não aprenderia sozinho e ajudou muito na minha carreira. Eu entrei na NARAS para encontrar mais pessoas de outras partes da indústria de áudio, todos nós estamos conectado de algum modo para juntos formar a indústria musical mais bela.

8.Escutar música todo dia como profissional de áudio afeta seus hábitos pessoais? (escutar músicas que não são do seu agrado pessoal do seu gosto) Você faz crítica a música que masteriza fora do ambiente trabalho? Você faz um balanço pessoal?

Não acho que usar minha orelhas seja usar também meu cérebro, ambos trabalham duro. Escutar uma música criticamente te cobra bastante. Por isso prefiro escutar o que me dar prazer em ambientes casuais. Tenho som descente no meu carro e no meu Ipod. Tendo escutar uma música de várias maneiras, quanto mais criativo e eclético é melhor, pois somente sirvo a música.

Entrevistado por Steve Mueske
Tradução e comentário: Rafael O KH Dantas

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